Preparando uma aula de filosofia ética para uma de minhas turmas de ensino médio, deparei-me com uma autora que gosto demais: a filósofa e teórica política alemã Hannah Arendt e sua noção de “banalidade do mal”.
Sua reflexão teve como ponto de partida o julgamento de Adolf Otto Eichmann, realizado em 1961, em um tribunal em Jerusalém, que o sentenciou a morte.
Eichmann foi julgado por ter enviado centenas de milhares de judeus para morte nos campos e concentração nazistas, mas durante o julgamento não mostrava ter ódio pessoal para com as pessoas que enviara para morte, mas que apenas cumpria a burocracia de seu serviço, com eficiência e, sobretudo, de maneira cega, sem refletir, problematizar, questionar as ordens que executava com eficiência como um competente funcionário.
Assim, para Hannah Arendt quanto menos se questiona e se problematiza as ações próprias, mais propenso a banalizar estas ações ficar-se-á – é natural. O problema é quando essa ação não é ética, é egoísta, é de fomento do ódio.
Para tentar trazer para nossa realidade atual a reflexão de Hannah Arendt, trago uma afirmação brilhante do jornalista Joseph Pulitzer:
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”
A grande mídia brasileira tem muita, mas muita responsabilidade em relação a banalidade do discurso de ódio em que nos encontramos hoje – basta ver o ódio a Lula que ela conseguiu botar na cabeça e nos corações das pessoas perseguindo diuturnamente o ex-presidente desde os anos oitenta, não só Lula, bem como o PT e, consequentemente, toda esquerda ficou com a pecha na cabeça de grande parte de nossa população de inimigos corruptos do Brasil.
Desde o mensalão a justiça transformada em espetáculo por essa mídia “cínica, mercenária, demagógica e corrupta” vem fazendo com excelência esse papel de entregar às pessoas ódios fabricados, diuturnamente, como uma espécie de fast food de ódio com um serviço delivary em horário nobre sobretudo.
Dinheiro saindo do encanamento para ilustrar competentemente a corrupção que o JN quer que você consuma com avidez cada vez maior e compulsivamente.
O pensamento é único – toda grande imprensa em uníssono chega nas casas com um discurso e uma versão sem a mínima chance de oferecer contrapontos – que é a base de uma verdadeira problematização.
Pronto. O mal já está banalizado. Não importa mais quais os meios usados pelas instituições para combater, punir e aniquilar os inimigos que ela entrega para as pessoas diariamente (inimigos dela e que ela faz que sejam inimigos das pessoas também).
Não importa que o herói que a mídia entrega às pessoas realize dia após dia atitudes de vilão – pois há, em uníssimo midiático, a afirmação de que o herói entregue às pessoas em horário nobre pode tudo – e que mesmo comprovadamente vilão ainda assim é e sempre será herói nacional.
Conforme evidencia os vazamentos da The Intercept, Moro e Dallangnol se relacionaram promiscuamente o tempo todo contra Lula, contra o Brasil, infligindo a lei, cometendo crimes, condenando um inocente e sangrando ainda mais nossa democracia já tão combalida – sobretudo quando fizeram o que foi ilicitamente possível fazer para impedir Lula de concorrer nas eleições de 2018 quando era favorito para ganhar o pleito em primeiro turno – o que o fazia então o preferido do eleitorado, o preferido do povo em um país que se diz uma democracia – que quere dizer poder do povo.
E triunfaram nas eleições tristemente as terríveis banalidades: a exaltação da tortura e de torturador, a perspectiva de se aniquilar opositores políticos, o gestual simulando armas de fogo e que, portanto, simulava a violência como plataforma política...
Tudo isso em vez de propostas de geração de empregos...
Em vez de propostas para o reerguimento da economia do país....
Em vez de projetos para garantir nossa soberania e proteção das nossas riquezas...
Mas para se chegar à conclusão que cheguei e boa parte dos brasileiros e brasileiras chegaram, é necessário problematizar as situações, refleti-las além do ódio que a mídia entrega, sair da zona de conforto que a banalidade do pensamento proporciona.
Sócrates e Platão também diziam que a ação má ocorre quanto mais se é ignorante em relação as ações que se pratica.
Mas Platão diz que há algo ainda pior do que fazer o mau – é não sofrer consequência alguma por ter feito o mal...
Mas nem tudo está perdido – porque hoje a resistência a esse estado de coisas se avoluma, o povo gradativamente tem ido às ruas, e faz acenos indicando que continuará indo às ruas.
Sinal de que a banalidade não vence o tempo todo e não vence no coração de todo mundo.
Por AL
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe aqui sua opinião!