sexta-feira, 28 de junho de 2019

VAZA JATO: O QUE É ESSENCIAL E O QUE É ACIDENTE ( AL)

                                                                                                                                                                Para Aristóteles, diferentemente de seu mestre Platão, as essências das coisas devem ser abstraídas das próprias coisas.

Assim, o que se pode abstrair de essencial em vários cavalos, por exemplo, é o “ser cavalo”, pois essa realidade não muda em todos os cavalos que existem – mudam a cor, o tamanho, etc.

Para Aristóteles, tudo que se modifica nas coisas é chamado de acidente.

Assim proponho que vejamos os vazamentos da The Intercept, por Glenn Greenwald, até o momento, sob o ponto de vista aristotélico, isto é, proponho que olhemos para o que é essencial nos vazamentos, e não para o que, pelo menos até o momento, na minha opinião, não passam de meros acidentes.

O site/canal Duplo Expresso vê os vazamentos como factoides que aos poucos frustrarão todas as expectativas neles depositados, mas que criarão o álibi necessário para se possibilitar o fechamento do nosso regime – pois para eles os militares colocarão na conta de uma suposta conspiração russa os vazamentos.

O jornalista Florestan Fernandes afirma que os vazamentos feitos desta forma assim tão “mastigada”, isto é, tão aos pouquinhos (assim entendi), soltando poucos dados por vez, fará diminuir o interesse de todos.

Bem, o Duplo expresso vê conspiração da esquerda contra a esquerda em tudo – então não deixariam de ver conspiração nos vazamentos e em Gleen associadas aos setores progressistas do país. Normal.

Quanto a opinião de Florestan Fernandes, faço alusão agora a Maquiavel, pensador que afirma que uma ação de um governante fica na cabeça do povo por mais tempo se acontecer aos poucos, pois, segundo ele, a memória do povo é curta – é por isso que Maquiavel diz que, se o governante tiver que realizar uma ação impopular, que a tome de uma vez; mas se a ação for de benefício ao povo, deverá tomá-la não de uma vez, mas aos poucos, em partes.

Concordaria com Florestan somente se es revelação fossem irrelevantes – o que sinceramente na minha opinião não o são – muito pelo contrário – são extremamente graves. E é por isso que deve-se focar no essencial dos vazamentos.

E o que seria o essencial nesses vazamentos? Capaz de fazer um contraponto fortíssimo aos ataques da lava jato à democracia que prenderam Lula sem a mínima prova?

Resposta: o fato de ser mostrado em todos os vazamentos até aqui que Moro jamais deixou de ser um com o MPF de Curitiba na lava jato, mas ainda, de Moro ter sido sempre o chefe das ações do MPF de Curitiba, em conluios e armações criminosas fazendo da defesa do réu, no caso Lula o símbolo maior dos crimes cometidos pela lava jato, apenas uma mera formalidade – porque o juiz não era só juiz, era também acusador – o que não é apenas deslize ético cometido por Moro e MPF, mas transgressão às leis, é crime – hediondo por natureza no meu modo de pensar, porque praticado justamente por quem deveria garantir a lei acima de qualquer coisa – o que tem (ou teria?) o poder de enfim libertar Lula das garras sujas de tamanha injustiça e fortalecer, assim, sobremaneira a resistência aos ataques à nossa democracia tão combalida, tão ferida, sangrando tanto...

Esse é o essencial da coisa.

“Provas obtidas ilicitamente”, “quem são os vazadores”, “o crime dos supostos hackers”, “conspirações da esquerda contra a própria esquerda”, "demora nos vazamentos", etc. todas essas realidades são acidentes.

Cabe a cada um de nós, além de qualquer mídia, da grande ou da alternativa, focarmos sempre no que é essencial.

Ps.: Se o futuro mostrar que estou errado hoje, com certeza me retratarei.

AL.


MORO E DALLANGNOL PODEM TUDO À CUSTA DE NOSSAS BANALIZAÇÕES

                                                                                                  Preparando uma aula de filosofia ética para uma de minhas turmas de ensino médio, deparei-me com uma autora que gosto demais: a filósofa e teórica política alemã Hannah Arendt e sua noção de “banalidade do mal”.

Sua reflexão teve como ponto de partida o julgamento de Adolf Otto Eichmann, realizado em 1961, em um tribunal em Jerusalém, que o sentenciou a morte.

Eichmann foi julgado por ter enviado centenas de milhares de judeus para morte nos campos e concentração nazistas, mas durante o julgamento não mostrava ter ódio pessoal para com as pessoas que enviara para morte, mas que apenas cumpria a burocracia de seu serviço, com eficiência e, sobretudo, de maneira cega, sem refletir, problematizar, questionar as ordens que executava com eficiência como um competente funcionário.

Assim, para Hannah Arendt quanto menos se questiona e se problematiza as ações próprias, mais propenso a banalizar estas ações ficar-se-á – é natural. O problema é quando essa ação não é ética, é egoísta, é de fomento do ódio.

Para tentar trazer para nossa realidade atual a reflexão de Hannah Arendt, trago uma afirmação brilhante do jornalista Joseph Pulitzer:

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

A grande mídia brasileira tem muita, mas muita responsabilidade em relação a banalidade do discurso de ódio em que nos encontramos hoje – basta ver o ódio a Lula que ela conseguiu botar na cabeça e nos corações das pessoas perseguindo diuturnamente o ex-presidente desde os anos oitenta, não só Lula, bem como o PT e, consequentemente, toda esquerda ficou com a pecha na cabeça de grande parte de nossa população de inimigos corruptos do Brasil.

Desde o mensalão a justiça transformada em espetáculo por essa mídia “cínica, mercenária, demagógica e corrupta” vem fazendo com excelência esse papel de entregar às pessoas ódios fabricados, diuturnamente, como uma espécie de fast food de ódio com um serviço delivary em horário nobre sobretudo.

Dinheiro saindo do encanamento para ilustrar competentemente a corrupção que o JN quer que você consuma com avidez cada vez maior e compulsivamente.

O pensamento é único – toda grande imprensa em uníssono chega nas casas com um discurso e uma versão sem a mínima chance de oferecer contrapontos – que é a base de uma verdadeira problematização.

Pronto. O mal já está banalizado. Não importa mais quais os meios usados pelas instituições para combater, punir e aniquilar os inimigos que ela entrega para as pessoas diariamente (inimigos dela e que ela faz que sejam inimigos das pessoas também).

Não importa que o herói que a mídia entrega às pessoas realize dia após dia atitudes de vilão – pois há, em uníssimo midiático, a afirmação de que o herói entregue às pessoas em horário nobre pode tudo – e que mesmo comprovadamente vilão ainda assim é e sempre será herói nacional.

Conforme evidencia os vazamentos da The Intercept, Moro e Dallangnol se relacionaram promiscuamente o tempo todo contra Lula, contra o Brasil, infligindo a lei, cometendo crimes, condenando um inocente e sangrando ainda mais nossa democracia já tão combalida – sobretudo quando fizeram o que foi ilicitamente possível fazer para impedir Lula de concorrer nas eleições de 2018 quando era favorito para ganhar o pleito em primeiro turno – o que o fazia então o preferido do eleitorado, o preferido do povo em um país que se diz uma democracia – que quere dizer poder do povo.

E triunfaram nas eleições tristemente as terríveis banalidades: a exaltação da tortura e de torturador, a perspectiva de se aniquilar opositores políticos, o gestual simulando armas de fogo e que, portanto, simulava a violência como plataforma política...

Tudo isso em vez de propostas de geração de empregos...

Em vez de propostas para o reerguimento da economia do país....

Em vez de projetos para garantir nossa soberania e proteção das nossas riquezas...

Mas para se chegar à conclusão que cheguei e boa parte dos brasileiros e brasileiras chegaram, é necessário problematizar as situações, refleti-las além do ódio que a mídia entrega, sair da zona de conforto que a banalidade do pensamento proporciona.

Sócrates e Platão também diziam que a ação má ocorre quanto mais se é ignorante em relação as ações que se pratica.

Mas Platão diz que há algo ainda pior do que fazer o mau – é não sofrer consequência alguma por ter feito o mal...

Mas nem tudo está perdido – porque hoje a resistência a esse estado de coisas se avoluma, o povo gradativamente tem ido às ruas, e faz acenos indicando que continuará indo às ruas.

Sinal de que a banalidade não vence o tempo todo e não vence no coração de todo mundo.

Por AL