"Me engana que eu gosto", diz Ferreira Gullar
Poeta maranhense faz seu último ataque
de 2012 ao PT e ao ex-presidente Lula e tenta explicar sua inexplicável
popularidade. Lula, segundo ele, encarna luta contra a desigualdade e o
eleitor não consegue crer que seja corrupto. Apostar num prognóstico sem
erro para o próximo ano é muito simples: em 2013, com certeza, tem mais
- Ferreira Gullar desistiu da
poesia, da literatura e só pensa naquilo: Lula, Lula, Lula. Neste último
domingo de 2012, mais uma vez, ele volta suas baterias contra o
ex-presidente e o PT. Ao tentar explicar sua popularidade, afirma que o
eleitor enxerga em Lula a luta contra a desigualdade e, assim, não
consegue acreditar que seja corrupto. Mas negar o mensalão, diz ele, é
uma comédia sem graça. Leia abaixo:
Me engama que eu gosto
O próprio Lula admitiu que houve o mensalão ao pedir desculpas publicamente em discurso à nação
Muitos de vocês, como eu também, hão de se perguntar por
que, depois de tantos escândalos envolvendo os dois governos petistas, a
popularidade de Dilma e Lula se mantém alta e o PT cresceu nas últimas
eleições municipais. Seria muita pretensão dizer que sei a resposta a
essa pergunta. Não sei, mas, porque me pergunto, tento respondê-la ou,
pelo menos, examinar os diversos fatores que influem nela.
Assim, a primeira coisa a fazer é levar em conta as
particularidades do eleitorado do país e o momento histórico em que
vivemos. Sem pretender aprofundar-me na matéria, diria que um dos traços
marcantes do nosso eleitorado é ser constituído, em grande parte, por
pessoas de poucas posses e trabalhadores de baixos salários, sem falar
nos que passam fome.
Isso o distingue, por exemplo, do eleitorado europeu, e se
reflete consequentemente no conteúdo das campanhas eleitorais e no
resultado das urnas. Lá, o neopopulismo latino-americano não tem vez.
Hugo Chávez e Lula nem pensar.
Historicamente, o neopopulismo é resultante da
deterioração do esquerdismo revolucionário que teve seu auge na primeira
metade do século 20 e, na América Latina, culminaria com a Revolução
Cubana. A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética deixaram,
como herança residual, a exploração da desigualdade social, já não como
conflito entre o operariado e a burguesia, mas, sim, entre pobres e
ricos. O PT é exemplo disso: nasceu prometendo fazer no Brasil uma
revolução equivalente à de Fidel em Cuba e terminou como partido da
Bolsa Família e da aliança com Maluf e com os evangélicos.
Esses são fatos indiscutíveis, que tampouco Lula tentou
ocultar: sua aliança com os evangélicos é pública e notória, pois chegou
a nomear um integrante da seita do bispo Macedo para um de seus
ministérios. A aliança com Paulo Maluf foi difundida pela televisão para
todo o país. Mas nada disso alterou o prestígio eleitoral de Lula,
tanto que Haddad foi eleito prefeito da cidade de São Paulo
folgadamente.
E o julgamento do mensalão? Nenhum escândalo político foi
tão difundido e comprovado quanto esse, que resultou na condenação de
figuras do primeiro escalão do PT e do governo Lula. Não obstante, o
número de vereadores petistas aumentou em quase todo o país.
E tem mais. Mal o STF decidiu pela condenação de José
Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, estourava um novo escândalo,
envolvendo, entre outros, altos funcionários do governo, Rose Noronha,
chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo e pessoa da
confiança e da intimidade de Lula.
Em seguida, as revelações feitas por Marcos Valério vieram
demonstrar a participação direta de Lula no mensalão. Apesar de tudo
isso, a última pesquisa de opinião da Datafolha mostrou que Dilma e Lula
continuam na preferência de mais de 50 % da opinião pública.
Como explicá-lo? É que essa gente que os apoia aprova a
corrupção? Não creio. Afora os que apoiam Lula por gratidão, já que ele
lhes concedeu tantas benesses, há aqueles que o apoiam, digamos,
ideologicamente, ainda que essa ideologia quase nada signifique.
Esse é um ponto que mereceria a análise dos psicólogos
sociais. O cara acha que Lula encarna a luta contra a desigualdade,
identifica-se com ele e, por isso, não pode acreditar que ele seja
corrupto. Consequentemente, a única opção é admitir que o Supremo
Tribunal Federal não julgou os mensaleiros com isenção e que a imprensa
mente quando divulga os escândalos.
O que ele não pode é aceitar que errou todos esses anos,
confiando no líder. Quando no governo Fernando Henrique surgiu o
medicamento genérico, os lulistas propalaram que aquilo era falso
remédio, que os compridos continham farinha. E não os compravam, ainda
que fossem muito mais baratos. Esse tipo de eleitor mente até para si
mesmo.
Não obstante, uma coisa é inegável: os dirigentes petistas
sabem que tudo é verdade. O próprio Lula admitiu que houve o mensalão
ao pedir desculpas publicamente em discurso à nação.
Por isso, só lhes resta, agora, fingirem-se de indignados,
apresentarem-se como vítimas inocentes, prometendo ir às ruas para
denunciar os caluniadores. Mas quem são os caluniadores, o Supremo
Tribunal e a Polícia Federal? Essa é uma comédia que nem graça tem.
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